O texto de Ítalo Calvino é análogo à questão profissional e sobretudo a vida e seus desdobramentos.
Algo que parece dissociável, na minha opinião está em estreita e constante relação.
Explico melhor.
Como pensar as particularidades do trabalho voltado ao aluno com deficiência se não pensamos nas particularidades de todas as crianças?
Como pensar e considerar a diversidade humana, se as atitudes de modo geral são pautadas no padrão e em modelos pre - estabelecidos?
Como compreender que cada pessoa se constitui por meio da sua própria história, se acreditarmos que só há apenas um único modo de aprender?
Essas são apenas algumas das perguntas que surgiram durante a leitura e permearam a releitura do texto que narra a reflexão e a mudança do Sr. Palomar na forma de ver o mundo, as pessoas e as vicissitudes da vida.
Aliás... para que seja possível "olhar pensando" é necessário descontruir os modelos que previamente são formatados para encaixar aquele ou aquilo que se pretende. Neste ponto, ou melhor, neste e em vários outros é que devemos nos reportar ao trabalho proposto para o AEE, ou seja para o que escolhemos fazer enquanto profissional, mas que reflete a forma de vermos as pessoas, as diferenças e o mundo tal como se apresenta.
Diria que as propostas do AEE e também toda a sua fundamentação e argumentação na busca e alcance de uma educação de qualidade para todos, mostram que a desconstrução de modelos é o caminho legítimo e necessário para a real e efetiva inclusão de todos os alunos que chegam à escola.
Ao considerar cada aluno nas suas particularidades e modo de aprender, estamos falando que não apenas um caminho, mas sim que os caminhos são muitos, diferentes e inusitados.
Planejar o que e como ensinar requer antes de mais nada, a formulação de perguntas sobre o que a prática pedagógica pretende e para quem esta será dirigida. O "quem" envolve toda a subjetividade que se coloca em jogo na relação "ensinar e aprender", ou seja, há sujeitos envolvidos e que trazem para o campo educacional toda uma gama de experiências, preferências, histórias, dúvidas, receios, interesses e conhecimentos e que devem ser considerados na ação pedagógica.
Assim como o Sr. Palomar, quando nos colocamos a pensar sobre a educação e o que esta tem de especial, temos que antes de mais nada nos livrar dos modelos que buscam a padronização e homogeneização, pois só assim será possível pensar em como ensinar a partir do olhar e da escuta atenta ao aluno e sua história e desconstruir informações que teimam rotular os alunos.
Assim, rotular ganha a conotação de exclusão, portanto Ítalo Calvino ao contar o percurso do Sr. Palomar faz um alerta e de forma poética nos convoca a pensar sobre o que nos cabe, enquanto agentes ativos na construção de uma sociedade mais solidária e humana e na corresponsabilidade pela desconstrução dos modelos que na maioria das vezes impede que lindas histórias sejam escritas.